A arte de graffitar

A busca de alguma coisa. É isto que os graffers portugueses desejam quando enchem as nossas paredes de desenhos, cores, contornos, tags e muito mais... Para estes jovens as paredes não são, apenas, uma superfície mas uma dimensão espacial própria, aberta às suas obsessões, esperando por mais um jacto de spray para ganhar forma. 

O graffiti não é  nenhuma forma gratuita de vandalismo sobre o património público ou propriedade privada. Muito pelo contrário. Quem pega numa lata não pretende dar largas a um desejo de destruição, mas sim mostrar a sua criatividade.

Os graffitis tanto incluem mensagens de natureza reivindicativa, como recados para a mãe, a namorada, um amigo, uma crew ou simplesmente uma dedicatória... O graffiti é uma arte que pode servir de suporte a críticas à cidade e à sociedade. Afinal tudo é possível com uma lata na mão!

«O mundo do graffiti é uma dimensão à parte. As pessoas não sabem o que é, nem o que significa.», diz Match, um writer de 18 anos. O próprio nome da crew a que pertence, Dimensão Subterrânea, demonstra bem este desejo de estar fora, de pertencer a um mundo que todos vêem, mas que nem todos são capazes de sentir ou sequer apreender. Há nestes jovens uma urgência de expressão artística, uma necessidade de levar para as paredes a sua identidade, mesmo que transformada, dissimulada pelos códigos e linguagens que partilham entre si. 

Não é à toa que este estilo de vida surge associado aos guetos norte americanos, onde jovens asfixiados pela exclusão racial e social, encontraram nas paredes dos seus bairros a tela para dar voz a sentimentos de revolta e de prazer. A história que se conta do primeiro graffer é a de um miúdo que começou a graffitar todas as paredes de Nova Iorque com um tag que era um número. Aquilo que causou nas pessoas uma enorme suspeita e intriga era apenas e somente o número da porta em que vivia.

O mesmo nome marca a presença.  Para obter fama é preciso tagar por todo o lado , é uma forma de delimitar fronteiras de um território, apropriar-se de um espaço. Quanto mais frequentado for o sítio, maior é também o seu domínio sobre os outros. « O que para as pessoas é apenas um graffiti bonito ou feio, para nós é uma forma de ganhar o respeito do resto da comunidade.  Vemos os nomes que estão por aí e o que vemos mais é o gajo que tem mais fama», afirma Mask, outro dos membros da DS. Mas esse "gajo" com mais fama, possui apenas um nome; a cara permanece uma incógnita mesmo para os que vivem dentro desta comunidade.

Muitos destes writers, normalmente os mais antigos e os mais respeitados no meio, começaram por pintar em casa e só depois vieram para as ruas, como é o caso de Match, que se iniciou nos cadernos de desenho. Outros começaram por pintar em locais recônditos, para mais tarde passar para sítios visíveis, como os "halls of fame". Nestes pinta-se sem medo das autoridades, o nome do autor é engrandecido pelo tamanho, pelo rebuscamento das suas formas, cores e fundos, sejam pintados em estilo livre ou a partir de um esboço. «Os writers quando não podem pintar à vontade transformam-se em bombers», ou seja, espalham o seu nome ou da crew, a letras delineadas a preto ou a cinza metalizado. Aqui tenta-se pintar o mais possível no menor tempo possível, pois o perigo espreita atrás de cada parede. «Esta forma de graffitar está mais ligada ao vandalismo do que propriamente à arte.», são os próprios writers que admitem. Mas quanto mais arriscado, mais adrenalina e «tu vais ser respeitado e reconhecido pelo teu trabalho ali, porque é um sítio perigoso.» São os chamados hot spots, sítios propícios a apanhar o "maior cagaço da vida"!! Principalmente quando se anda a pintar comboios e se sente de repente uma arma apontada à cabeça. Aí é preciso correr... A noite e a madrugada são as melhores horas. À luz do dia só se realizam trabalhos em locais previamente autorizados ou quando calha, em alguma situação tão rara como propícia. Uma vez que graffar é proibido e arriscado a polícia anda sempre em cima, «enfrentamos muitas vezes a polícia e aí é preciso ter sangue frio. Não são coisas em que as raparigas se queiram meter.», diz Match quando confrontado com a ausência de raparigas na sua crew.

O verdadeiro espírito do graffiti é a comunhão entre as diversas crews, pois apesar de parecerem diferentes aos olhos do resto da sociedade partilham uma mesma cultura, uma mesma identidade... «o espírito é amigável entre os que realmente vivem isto, não os que são de modas, que entram porque é giro e saem porque afinal não interessava. Nós preservamos o movimento.». A verdade é que há uma rivalidade entre crews que não deveria haver, uma luta entre os que querem pintar e os que pensam que dominam a área e não admitem que haja mais gente a fazer trabalhos ali. «Somos todos perseguidos e mesmo assim não nos mantemos unidos.», dizem, com algum sentimento de revolta os membros da crew DS.

Por tudo isto não é de estranhar o medo que as pessoas sentem ao passar por ruas cheias de graffitis, imaginando-se já numa zona de criminalidade. Ao contrário os graffers assustam-se com as zonas de prédios e paredes brancas, alegando solidão e desamparo, «se entro num bairro cheio de graffitis fico mais descansado. Está tudo bem, quer dizer que existem pessoas lá e que estão vivas.» Não ligam ao sítio onde pintam pois acham bonito o que fazem, e não compreendem, sequer, que os outros não sintam o mesmo. «Se vir um sítio bonito vou lá e pinto. Não me interessa de quem é a casa.», diz Mask para quem o que interessa é andar pela noite a arriscar a vida... e cujo maior sonho era, mesmo, pintar no metro!

 

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