Hip Hop
O Hip Hop não é um estilo de música, ao contrário do que muitos possam pensar. É acima de tudo, um estilo de vida. Tudo dentro do Hip Hop tem a ver com a afirmação de uma identidade esmagada pelo peso de uma grande cidade. O mesmo se passa nas outras disciplinas que compõem esta comunidade. Esta forma de expressão entende-se dentro do que o "dj" faz, dentro do que o "raper" faz, a afirmação constante do seu nome, do que o "breakdancer" faz no meio da rua em cima de um pedaço de cartão, e também do que o graffer faz, o seu "tag", que não é mais que a sua assinatura espalhada por todas as ruas. São maneiras diferentes de dizer ao mundo que se existe, e pontuar pela cidade os seus próprios caminhos.
Este universo do Hip Hop nasceu «um pouco como a teoria do Big Bang...», diz Rui Miguel Abreu, apresentador e comentador do programa "Hip Hop don´t stop", que passa todos os domingos e 4ª à noite, na Rádio Marginal, «há uma série de explicações que conduzem ao seu nascimento. Ao nível musical tem a ver com uma série de evoluções dentro da música negra.». No início dos anos 80 as políticas do "Reganismo" limitaram o ensino de música nas escolas, e assim uma série de jovens passaram a fazer, eles próprios, essa aprendizagem. Este é um tipo de música muito urbana que dirá qualquer coisa a quem quer que sinta o pulsar da cidade... É o resultado de um processo democratizante, acessível a músicos e a não músicos, é uma música com códigos rítmicos muito específicos, que qualquer pessoa com o equipamento certo pode aceder.
Deste universo do Hip Hop fazem parte mais quatro disciplinas fundamentais: o graffiti, o dee-jaying, o m-siing e o breakdance. Entre o graffiti e o breakdance há uma ligação muito profunda à comunidade latina dos EUA. Tudo começou com os murais latinos do tempo dos aztecas que sempre foram uma grande forma de expressão dentro da comunidade latina. O próprio breakdance surgiu como uma forma de evitar as batalhas entre diversos gangs de Nova Iorque. Era preferível o convívio, a dança para eleger um bom bailarino, às guerras e lutas que muitas vezes terminavam em banhos de sangue...
A ideia de um programa deste género surgiu há um ano e meio, quando Rui Miguel Abreu propôs à Rádio Marginal o tema do Hip Hop, «esta é uma rádio que se quer um pouco alternativa, que quer fugir à rotina dos dias e dos trabalhos, das mesmas músicas, dos mesmos cantores dos tops... Hoje este é um projecto cheio de garra e com muitos apoiantes. Todos os domingos aqui aparecem pessoas, mc´s, dj´s, graffers... esta rádio torna-se um mundo à parte!».
Em Portugal o Hip Hop está de muito boa saúde!! Vão aparecendo cada vez mais projectos, todos eles interessantes e com "pés para andar para a frente". «Surgem imensos álbuns novos. Não porque as editoras os apoiem assim tanto, mas porque as pessoas não estão à espera que alguém lhes edite os trabalhos.». Rui Miguel Abreu afirma que as pessoas da comunidade são pessoas muito dinâmicas e, tal como os writers não estão à espera de ingressar numa escola de arte para se exprimirem, também os mc´s e os dj´s não estão à espera de nenhum contrato "milionário", «então, como este é um meio muito imediato onde não se privilegia muito a qualidade de som, as pessoas não vivem obcecadas por um estúdio. E por isso, produzem em casa e metem os materiais à venda assim mesmo. O cada vez maior acesso aos computadores e aos samplers, permitem a qualquer miúdo fazer coisas muito interessantes. ». Claro que este é um mercado muito restrito e reduzido, de quem nem todos têm conhecimento, mas a verdade é que funciona!
Nem todas as pessoas vêm com bons olhos o estilo de vida que os adeptos do Hip Hop levam. São descriminados pelas roupas que usam, (calças largas a arrastar no chão, com bolsos de lado, t-shirts por cima de t-shirts, bonés de pala ao lado e ténis com atacadores das mais fluorescentes cores...), pela linguagem que utilizam, pela própria música que ouvem e claro está, pelos desenhos que fazem ao longo das paredes e muros das cidades e vilas. «Qualquer comunidade, seja ela musical ou racial, que tenha códigos específicos de comportamento, e que sejam diferentes do que "é a normalidade", vai encontrar problemas e ser excluído, exactamente porque faz questão de mostrar essa diferença.». Isto acontece com o Hip Hop da mesma forma que há uns anos atrás acontecia com os metálicos que eram vistos de forma estranha, tal como também acontece ainda com os surfistas. As pessoas ao verem nesses códigos uma forma de diferença imdiatamente se vão afastando deles e a eles próprios.