Entrevista a Bragança de Miranda feita via IRC

 

Session Start: Thu Jun 15 13:22:09 2000

< ciberalunas > Bom dia!

< jbm > Olá!

< ciberalunas > Como é que caracteriza as relações que se criam no Sigla para Internet Relay Chat. É um sistema que permite a comunicação entre vários utilizadores de Internet, divididos por grupos de discussão. A comunicação é feita em tempo real (diálogo directo textual). Os utilizadores deste sistema podem entrar num grupo já existente ou criar o seu próprio grupo de discussão (Internet Relay Chat)?

< jbm > Seria preciso definir com precisão o que se entende por «relação», o que é menos fácil do que parece. De qualquer modo é evidente que as relações estilo IRC não cabem na visão clássica que se baseia na presença, caso da «conversa» ou das ligações corporais, nem nas relações in absentia, caso da «carta». Ao mesmo tempo está-se presente e ausente, o que é perturbador, temos de reconhecer...

< ciberalunas > Mas será que em alguns aspectos a podemos comparar com a comunicação que se estabelece face-a-face?

< jbm > Diria antes que na «forma» da relação em presença, se incrustou, devido à tecnologia digital, formas provenientes de outro tipo de experiência. Falei das «cartas» e aquilo que elas implicavam: a possibilidade de falsificação, o descontrolo face à ausência de outros sinais como os gestos, trejeitos, etc. Não é por acaso que a carta se tornou um género ficcional por excelência, basta lembrar as Ligações Perigosas de Laclos.

< jbm > Continuando. Perigosas porque pela carta todo um novo erotismo estava presente, cujos efeitos são cincontroláveis. Para os clássicos tudo dependia da capacidade de certificar a autenticidade da ausência por meios que colmatavam a ausência. Hoje esta tendência parece condenada. Se calhar o mais interessante do IRC, do e-mail, etc., é o descrédito dessa vontade de certificação e de controlo. Para alguns abrem-se aqui possibilidades estéticas novas.

< jbm > No meu caso penso que não devemos separar as ligações estilo IRC de uma série de outras, tecnologicamente assistidas, como o e-mail, a telepresença, a virtualidade, etc. É o conjunto destas formas de ligação que constitui algo de novo, relativamente à economia mediática que caracterizava a modernidade.

< ciberalunas > E será que mesmo assim é possível estabelecer condições de validade para a comunicação que se estabelece e para as relações criadas?

< jbm > A nova cibermoralidade que grassa na Internet e nas redes telemáticas tem o seu fundamento, justamente, na vontade de certificação da autenticidade. Tudo indica que irão em crescendo as tentativas de impedir usos perversos do IRC e das outras ligações técnicas. O caso da pornografia é bem indicativo do que está em causa. Na minha opinião trata-se de estender a um domínio «novo» tendências velhíssimas, que funcionam a partir da estabilização do desejo.

< jbm > Todo o poder depende da propriedade dos objectos, e, portanto, de tornar todas as coisas em objectos; e, por outro lado, na estabilização dos sujeitos, estabilizando o que há de errante, infixável e perverso no desejo e nas paixões. Trata-se de criar sujeitos certificados, por exemplo pela moral e a polícia, pelo Bilhete de Identidade. Estamos a assistir a uma certa crise das noções modernas de «objecto» e de «sujeito».

< jbm > E sabe-se que atrás da moral vem logo a polícia. Seria bom se pudessemos agir e pensar fora destes quadros tão rígidos, e neste ponto de vista há uma batalha a travar nas redes virtuais, que espero não tenha o mesmo destino dos «índios» americanos. Só que agora os «índios» somos todos nós.

< ciberalunas > E como é que se pode colocar a questão da identidade?

< ciberalunas > As personagens criadas são desenvolvoimentos, facetas menos exploradas de nós, ficções, clones,...????

< jbm > Desde o século XIX, com Rimbaud por exemplo, e já com o «nosso» Pessoa era evidente para os modernos mais radicais que o «sujeito» era apenas o efeito de uma imposição de uma identidade sobre um «corpo». ora, um corpo pode assumir uma imensidade de identidades. O que está a entrar em crise são as estruturas de fixação que associavam uma identidade a um corpo. No caso teológico, a associação de uma «alma».Por exemplo, ser «homem» ou simliar.

< jbm > Não diria que são simples ficções, a não ser no sentido de que o sujeito identitário era uma ficção, ou que a alma era uma ficção. Mas são ficções necessárias, com as quais se vive e morre. Mas se se morre, que se saiba, pelo menos, como, e sob as figuras em que se está disposto a morrer.

< ciberalunas > E a linguagem do IRC aproxima-se mais da comunicação oral ou da escrita?

< jbm > É «escritoral». Já imaginam os problemas que aí se colocam. Obrigado.

Session Close: Thu Jun 15 13:53:34 2000

 

Textos online de Bragança de Miranda:
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Musil: De um outro uso das paixões

O Controlo do Virtual

O Fim do Espectáculo