A cadeira de História e Teoria da Televisão surge no quadro da Licenciatura em Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, integrada na área de especialização Audiovisual e Media Interactivos.
De um ponto de vista pedagógico e científico, a cadeira História e Teoria da Televisão sempre funcionou como uma âncora da área de especialização, sendo o principal objectivo da coordenação e da equipa da área permitir que através dos conteúdos da disciplina os estudantes tenham uma formação teórica sobre a constituição de um saber histórico e teórico do dispositivo da televisão, designadamente no contexto das mais significativas experiências da segunda metade do século XX.
Tratando-se de uma cadeira desde logo integrada nos pressupostos metodológicos e epistemológicos da área das ciências históricas, pretendeu-se assim desenvolver nesta disciplina uma reflexão em torno da genealogia de estruturas histórico-comunicacionais da era televisiva, das respectivas mediações simbólicas e tecnológicas e da sua importância genérica no campo dos media, em particular no contexto do sistema mediático português 1 .
Do mesmo modo se fez - e se continua a fazer com regularidade - a análise de contextos, práticas, regularidades, arquivos e séries específicas, bem como o estudo das condições de produção histórica do real comunicacional e televisivo, designadamente, e da lei dos sistemas que orientam o aparecimento de enunciados como acontecimentos singulares na nova era do audiovisual. Essa dimensão de análise é depois complementada com a pesquisa aplicada e empírica de séries discursivas, quer relativamente à programação televisiva, quer relativamente ao próprio dispositivo da informação televisiva. Ou, também, relativamente às séries «jurídicas», às políticas públicas, às estratégias europeias do audiovisual, debates especializados e estudos em tornos do sector, etc.
Na abordagem dos diferentes tempos históricos da genealogia da televisão e do seu impacte social, no quadro portanto das temáticas específicas da cadeira, procura-se problematizar a emergência de campos de mediação, designadamente a partir da interpretação das pequenas e grandes mutações da história contemporânea e na configuração das diferentes estruturas comunicacionais, tecnológicas e simbólicas, sempre que tal é possível, quer ao nível «local», quer no plano global, procurando-se uma interpretação aprofundada do modelo televisivo português, nas suas dimensões discursiva, histórica, política, legislativa e tecnológica.
Em termos do programa da cadeira e de um ponto de vista genealógico, analisando os dispositivos histórico-culturais das épocas históricas e/ou comunicacionais mais próximas, mas específicos da era mass-mediática, são considerados os diferentes universos que originaram o novo modelo comunicacional em presença - a transição da sociedade pós industrial para os media de massa; a emergência da televisão e a experiência do público, tal como as dramaturgias alternativas à narrativa clássica - os self-media, a interactividade, referências à videoart, etc., entre outras temáticas e conteúdos programáticos.
Mas a verdade é que mais para além da relação entre a era audiovisual e a contemporaneidade, sobretudo na segunda metade do século XX, a disciplina de História e Teoria da Televisão está também integrada numa área que configura em permanência mudanças estratégicas no âmbito do ensino teórico e prático dado estarmos, de facto, perante um domínio de forte convergência tecnológica, o que significa tratar-se de uma área de especialização que é constantemente solicitada a actualizar os seus conteúdos programáticos, o impacte societal dos novos suportes tecnológicos e inevitavelmente também os seus próprios procedimentos pedagógicos, as suas práticas e estratégias de formação. A cadeira, em si, não foge também a esta questão fundamental, se bem que o seu corpus temático seja bem mais estável que o de uma cadeira essencialmente prática da área, por exemplo.
De facto, os tempos que atravessamos são de conversão regular destas áreas em projectos pedagógicos e científicos de clara convergência entre o audiovisual, a informática e o multimédia, estudando essa convergência no domínio das redes, tecnologias e conteúdos, o que, do nosso ponto de vista, e enquanto responsáveis da área de especialização onde a cadeira se insere, implica enfrentar com alguma preocupação e grande expectativa esta mudança que nos conduzirá a uma sociedade radicalmente diferente daquela que conhecemos ao longo destes últimos vinte anos.
Naturalmente, essa diferença passará por aquilo a que se tem vindo a chamar a Sociedade da Informação - ou, segundo outros, a Sociedade do Conhecimento. Metáfora ou não - de modelos sociais e tecnológicos mais abertos -, a verdade é que as redes interactivas são uma realidade irreversível. São fundamentalmente esses suportes, de grandes capacidades e elevados débitos, que convocam neste final de século a nossa qualidade criativa e apelam às melhores competências de forma a sermos capazes de criar uma singularidade no universo complexo da globalização de conteúdos e tecnológica.
É, no fundo, essa a função da universidade e dos agentes de formação. Nessa perspectiva, de forma a dar enquadramento a todas as preocupações enunciadas, a cadeira está assim organizada fundamentalmente em cinco grandes capítulos, integrantes dos respectivos sub-capítulos, a saber:
Tópicos Programáticos da Cadeira (Programa)
1. Para uma Epistemologia da História dos Media e do Audiovisual
1.1. Da teoria da história à epistemologia da comunicação.
1.2. Introdução à história e teoria do audiovisual.
2. Os Media na Sociedade Pós-Industrial e a Emergência da Televisão
2.1. Genealogia da sociedade de consumo e emergência da publicidade.
2.2. A emergência da radiodifusão.
2.3. Apogeu e queda dos monopólios audiovisuais públicos.
2.4. O caso português: a informação e a programação televisiva do salazarismo à era da concorrência televisiva.
3. O dispositivo televisivo e a videocultura
3.1. O dispositivo televisivo e o dispositivo comunicacional moderno.
3.2. A informação televisiva. Política, actualidade trágica e fait divers como legitimação.
3.3 Desregulamentação e auto-legitimação do Estado.
3.4 A fragmentação, os públicos e a multiplicidade da oferta.
3.5 Televisão e Sociedade: a questão dos efeitos
4. Evolução e Estratégias do Audiovisual Europeu
4.1. A programação televisiva da era da concorrência.
4.2. Os fluxos de programas e o confronto entre a Europa e os EUA.
4.3. Perspectivas do serviço público de televisão na Europa na era digital.
5. Questões da Convergência do Audiovisual com as Comunicações e a Transição para o Digital
5.1 Fragmentação, convergência e matriz.
5.2 A concentração «multimédia» e as estratégias globais de comunicação: a regulação pelo mercado?
5.3 A emergência do multimédia e da interactividade
5.4. As dramaturgias da 'pós-televisão' e os desafios do digital.
5.5 O Futuro da Televisão - das Tecnologias às Políticas
Bibliografia essencial
BONNELL, René,
La vingt-cinquième image , Paris, Gallimard, 1989
BETTETINI, Gianfranco,
La conversación audiovisual , Madrid, Catedra, 1986
BOURDON, Jerôme,
Histoire de la télévision sous de Gaulle , Paris, INA/Anthropos, 1990
CÁDIMA, F. Rui,
Desafios dos Novos Media, Editorial Notícias, Lisboa, 1999.
Salazar e Caetano e a Televisão Portuguesa, Editorial Presença, Lisboa, 1996
O Fenómeno Televisivo , Círculo de Leitores, Lisboa, 1996
DANEY, Serge,
Le salaire du zappeur , Paris, Ramsey, 1988.
LEBLANC, Gérard,
Treize heures/Vingt heures, Le monde en suspens , Marburg, Hitzeroth, 1987
MANCINI, Paolo,
Videopolitica, Telegiornale in Italia e in USA , Roma ERI/Edizioni RAI, 1985
McQUAIL, Denis,
Teoria da Comunicação de Massas, FCG, Lisboa, 2003
NEL, Noël,
Le débat télévisé , Paris, Armand Colin, 1990
RICHERI, Giuseppi
La Transición de la Televisión , Barcelona, Bosch Comunicacion, 1994
SANTINI, Gilles (dir.)
L' audience des médias , Paris, Les Éditions d'Organisation, 1989
WOLTON, Dominique
La folle du logis, La télévision dans les sociétés démocratiques, Gallimard, 1983
Éloge du Grand Public , Paris, Flammarion, 1990