•  Daniela Albuquerque e Andreia Vieira - "As Telenovelas em Portugal - história e teoria do género" in O Fenómeno Televisivo, Círculo de Leitores, Lisboa, 1995

Folded Corner: As Telenovelas são um benefício na luta pelo top's das audiências televisivas a nível nacional, tendo vindo a obter as mais altas audiências ao longo dos últimos anos.     Repare-se, em Portugal, no total de telenovelas - brasileiras, sul-americanas e portuguesas que entram na disputa agressiva das quotas de mercado pelos diferentes canais à é a telenovela a principal responsável pelo elevado tempo médio que cada telespectador actualmente despende a ver TV em Portugal ( o mais alto da Comunidade Europeia).

As telenovelas em Portugal - história e teoria do género

O início:

* A telenovela inicia-se em 1951 no Brasil, na TV Tupi de São Paulo, com Sua Vida me Pertence de Walter Foster , passando duas vezes por semana em episódios de 20 minutos.

* Entretanto a novela só passa a diária cerca de doze anos mais tarde. Mas a primeira novela a fazer parar o Brasil foi O Direito de Nascer , deFélix Caignet , transmitida em 1964/65 nascendo assim um género.

* Por toda a parte os canais generalistas - públicos e privados -, vão confirmando as "qualidades" particulares de novela e soap operas para produzir audiências e fidelizar o "grande público".

* A telenovela é uma herança das novelas radiofónicas da altura, sustentando tanto o melordramatismo , como os títulos e as temáticas.

Soap Opera à Novela

*  Soap opera: o que significa à à letra, "ópera de sabão", deriva do patrocínio que nos anos 40, 50 e 60 as empresas multinacionais de detergentes davam à produção de radionovelas e, mais tarde, de telenovelas.

*  Diferença entre a " soap " e a novela :

§         Está em torno do individual e das frustrações e expectativas de um universo e nos mitos de ascensão social criados já pela cultura mass-mediática .

§         É sobretudo na novela histórica, nas adaptações onde à partida as modalidades estruturais de uma narrativa com historicidade própria e com um tempo não-linear que divergem.

§         As soap podem durar anos, enquanto no Brasil a duração média das novelas oscila entre os 6 e os 9 meses.

As Características:

1)    Género específico de mensagem com uma linguagem de estrutura própria

2)    Narrativa de ficção com verosimilhança no enredo

3)    Herói à ‘ domesticado' , sujeito ao reversos e aos sucessos, alegrias e tristezas, frustrações e prazeres do espectador. Este insere-se na vida quotidiana do espectador

4)    Nos seus primórdios à "ostentavam soturnos títulos que espelhavam bem a carga de melodramatismo contida nas suas histórias: Um beijo nas sombras, Meu trágico destino, Noivado nas trevas ,...”

5)    O género (sob o ponto de vista narrativo) à raramente superou o seu formato tradicional, herdado da própria radionovela .

6)    A representação do mundo através de um conjunto fechado de personagens e intrigas

7)    Centradas sobre histórias de lugares comuns e temas universais que se repetem até à exaustão (o ciúme, as dicotomias pobres/ricos, o viver fácil, a paixão ardente, etc.)

8)    Constituir-se pela forma reciclada da narrativa popular e da tradição oral.

9)    Longo fluxo sequencial de episódios à que origina a fidelização das audiências, muitas vezes seguindo, diariamente, não uma, mas várias telenovelas.

10) Certa analogia com o mundo religioso, com o universo mítico , no qual as figuras representam a forma da virtude ou a do pecado à estereotipização das personagens .

11) Jogo contraditório de projecções e identificações , com os sentimentos mais pueris da "carne" - o real é devolvido pelo dispositivo televisivo, e reconhecido à imagem e à medida daquilo que as audiências fantasiam, uma vez que estas têm uma tendência para a evasão do real, revendo-se numa realidade que não é real, assim como no comportamento das personagem.

12) Histórias massificadas , partindo muitas das vezes do conto popular, ou do melodrama, não excedem em geral as expectativas de um público que pretende encontrar nesta a reprodução de práticas do quotidiano à histórias previsíveis, embora não se diminua o interesse da audiência à Daí a imediata adesão e o alargado "entendimento" do género, a fidelidade devida, e a sua quase perenidade televisiva.

13) A Serialidade:

A telenovela, debitada em episódios, assegura o seu enraizamento na vida quotidiana do espectador, cirando um ritmo estereotipado de difusão e um convívio permanente com as personagens. Assim, as expectativas do publico são constantemente relançadas, socializando-o de maneira eficaz.

A intriga , estruturalmente repetitiva e mutável, muda indefinidamente as variantes da sua realização, produzindo o prazer especifico da descoberta.

Por isso a telenovela podia reproduzir-se sem fim ; bastaria a introdução de novos nós.

A serialidade do género, espécie de ritual de consumo com o telespectador à encontro diário e pontual entre telespectador e emissora.

   

O grau de Realidade

* Nem sempre se alheia da realidade . Mas uma das críticas feitas por Artur da Távola no início dos anos 80, era de facto que a telenovela não retratava o real : « raramente os autores de novelas focam os problemas sociais como o problema do totalitarismo, os conflitos entre grupos ou classes (...). Em relação à mulher, predominou a visão da mulher dependente, submissa, incondicional, como padrão de comportamento. O que se vê ainda é o triunfo do melodramático. »

*  Com a chamada Nova República, segundo alguns autores, notou-se uma aproximação das temáticas das novelas à nova situação política democrática .

*  Qualquer semelhança entre a telenovela e o modo de ser e viver brasileiro tem sido, na maior parte dos casos, pura casualidade.

Telenovela, TV e Educação

* Telenovela como "poluição" cultural à desejo de incentivar argumentistas a utilizarem cada vez mais este género televisivo «como um instrumento pedagógico e como meio de instrução popular».

* Por muito que se pretenda ver na telenovela um novo género televisivo e "literário" , que se pretenda considerar que a literatura se iria tornar mais "televisiva", não se pode inferir da "qualidade literária do produto".

Críticas directas eram expressas, ainda em clima censório (início dos anos 80): « O povo brasileiro perdeu o hábito de discutir e autodiscutir . Daí os altos índices de audiência (...)».

Text Box: Artur da Távola* caracteriza:  «...Viver de capítulos de meia hora diária, pouco cansativos, pois, forma homeopática e bastante leve de o público ir acompanhando uma trama, como que tomando as suas doses de emoção diária (...). A telenovela conta com a possibilidade de ir se constituindo num hábito que é altamente eficaz como mecanismo de lazer, para passar o tempo e para exercitar vivências e emoções guardadas, frustradas, de saudade ou recordações, dificuldades... todas elas reais ».    * 

* Artur da Távola , um célebre crítico de TV, brasileiro

 Telenovelas Portuguesas

  *  1977, a telenovela “Gabriela, Cravo e Canela” de Jorge Amado (primeira telenovela brasileira), entra na grelha nacional.

  *  1982, transmite-se a primeira novela portuguesa “vila Faia”. Esta teve pouco sucesso quando equiparada à ficção brasileira (as novelas portuguesas tinham cerca de vinte anos atrasada em relação à produção brasileira).

  Franscisco Rui  Cádima, professor universitário, justifica:

“A qualidade dos textos e/ou do script , as incongruências e a inverosimilhança no plano narrativo, a pouca experiência dos actores e realizadores neste tipo de produção, a contínua colagem de actores de revista, do teatro ligeiro, e de realizadores de televisão sem experiência na ficção, rapidamente conduziu a um impasse, não só em termos da qualidade global da produção portuguesa no género, como também no plano das audiências”.

  *  Desde o início da transmissão da primeira telenovela brasileira, já muitas telenovelas, portuguesas e brasileiras, passaram nos nossos écrans .

*  Surgindo, assim, várias críticas à transmissão massiva das telenovelas:

1)    quanto aos efeitos públicos do horário de transmissão. A telenovela, sendo emitida em horário nobre, retiraria espectadores dos cinemas e teatros.

2)    quanto a uma espécie de aculturação linguística. Vergílio Ferreira criticava a utilização quotidiana de expressões típicas das telenovelas brasileiras.

3)    Lídia Jorge , escritora portuguesa, defendia que: a telenovela “vai criar uma dependência psicológica, não deixando um tempo de efabulação, de desejo, de contemplação, de participação (...), a RTP deve ter uma missão polémica para abrir as inteligências e não dar só anestesiantes”. Ainda segundo a autora, um dos aspectos negativos “é a frivolidade dos personagens, ou seja, as pessoas não são apresentadas na acção do trabalho, do esforço. Os quotidianos são apenas de lazer, de riqueza, de nada fazer”.

  *  Eduardo Prado Coelho , escritor e professor universitário, contrapõe todas estas críticas: “Há um prazer em ver telenovelas que seria desonesto dissimular (...). A telenovela é outra coisa – um pequeno oásis na vida de todos nós.”

Citando Mattelard , “toda a análise crítica que os intelectuais fizeram até agora dos media se baseou nessa verdadeira aberração que é a ocultação do prazer”.

  *  Com o surgimento dos canais privados – SIC em 1992 e TVI em 1993 – aumentou a diversidade de escolha e a possibilidade de fidelização do público. Nesta época, a média de telenovelas emitida por todos os canais era de onze por dia.

  *  Esta competitividade permitiu novas estratégias de lançamento dos novos produtos.

Por exemplo, a RTP aproveitava o final de uma novela para, em continuidade de horário, colar a seguinte, como forma de a promover (esta técnica é ainda utilizada pelos canais privados – SIC e TVI).

  Em jeito de conclusão...

 Podemos questionar o papel dos " reality-shows " nas televisões portuguesas. Tiveram sucesso, inicial, mas rapidamente se verificou o esgotamento deste formato. Estes vieram solidificar o lugar das telenovelas.

  *  Mas... o que terá levado a este cansaço espontâneo por parte do público, enquanto as novelas se mantêm há décadas entre as preferências dos portugueses? (ex.: as televisões privadas têm cerca de seis horas diárias de telenovelas, concentradas no horário nobre).

  *  E... quais são as condições que tornam Portugal um consumidor excepcional de telenovelas? (ex.: cultura, população pouco letrada,...)

  *  Pois... quer se goste ou não de telenovelas, é impossível ficarmos indiferente a um fenómeno destes. Não podemos subestimar o poder deste formato televisivo. Mas será que o consumo em larga escala é sinónimo de qualidade? (ex.: novelas nacionais da TVI).

Daniela Albuquerque e Andreia Vieira

2º ano Ciências da Comunicação