As transformações operadas na passagem da proto para a neo-televisão – como a mudança de dispositivo conduz a mudanças nos processos de posicionamento do espectador.
Exemplo da BBC:
Modelo conservador de televisão, serviço público com a fórmula popular da televisão dos EUA (mais avançada que a da Europa).
A Proto-Televisão
Uma “instituição”, uma estrutura de contratos pedagógicos de comunicação. Fundada num projecto de educação cultural e popular. Missika e Wolton dizem que “os telespectadores são aí uma “grande turma” de que os profissionais de televisão são os “professores”.
1. pretendia a transmissão de saberes;
2. comunicação quase de dirigismo na forma de interpelar o destinatário
3. comunicação fundada na hierarquização dos papéis.
A Alemanha nazi introduz pela primeira vez na Europa emissões de televisão regulares. Utilizada, entre 1936 e 1939, por Goebbels, Ministro da Propaganda do III Reich, para dominar o país, a televisão funcionava mais como “intra-televisão”, ou seja, tinha uma dimensão restrita. Não teve tanta força como o uso da rádio porque havia uma desadequação do modelo televisivo – a força da máquina era difícil de tratar.
As primeiras emissões regulares da década de 30 na Alemanha, Reino Unido, União Soviética e EUA são muito parecidas com as primeiras emissões realizadas em Portugal em 1956/1957. No fundamental da linguagem televisiva e da estrutura narrativa, a programação televisiva portuguesa também pouco evoluiu relativamente aos dispositivos pioneiros.
É ainda na fase proto que se dá a massificação do meio. Na Europa (exceptuando o Reino Unido que já tinha a ITV como estação privada) é num contexto de monopólio televisivo de serviço público que se verifica a popularidade do meio e a conquista de grandes audiências nacionais.
A Neo-Televisão
Rompe com o modelo pedagógico da proto-televisão e introduz o processo interactivo através de questões do apresentador, pelo telefone o espectador é consultado. Adquire, assim, 3 papéis: o de eleitor, pode votar; o de participante; e o de avaliador da performance dos convidados e do programa.
Na neo-televisão o apresentador já não é o centro. Já não é um espaço de formação, mas de convívio – o espaço, por excelência, é o do talk-show. “O essencial é falar” num espaço que é o de confronto de opiniões. De afirmações passou-se a questões; de discurso institucional a discurso individual; de relação hierárquica a relação de proximidade.
A neo-televisão é o prolongamento da vida quotidiana.
Referente Temporal – o quotidiano (programas da manhã, da tarde, da noite) – integração dos rituais principais.
Referente Espacial – do estúdio se faz café.
O conteúdo são pequenas histórias de todos os dias, os conselhos úteis ou a vida das celebridades. A familiaridade é a regra. Dá-se, também, a entrada em força de dois temas quase tabu na proto-televisão – sexo e dinheiro.
A neo-televisão não é uma instituição que se inscreve no prolongamento da escola e da família, mas sim um espaço integrado no quotidiano.
Passou-se de um funcionamento em termos de contrato de comunicação, na proto-televisão, para um funcionamento de contacto. De acto social a televisão passa a ser acto individualista.
Adorno e o “efeito de palimpsesto”:
Adorno fez em 1954, no texto “A Televisão e os Padrões da Cultura de Massa” uma investigação sobre os estímulos sócio-psicológicos do material televisivo e uma avaliação dos efeitos que tende a produzir.
A televisão consiste em várias camadas de significados sobrepostas umas às outras a fim de contribuir para um efeito”. “Esta interacção de vários níveis indica uma direcção definida: a tendência para canalizar a reacção do público”.
“A tipificação em televisão levou a que o telespectador se aproxime de cada um com um padrão fixo de expectativas”. “A tecnologia de produção da televisão torna quase inevitável a estereotipagem. Quanto mais se materializam e se tornam rígidos os estereótipos na presente estrutura da indústria, tanto menos gente tenderá a modificar as suas ideias preconcebidas com o progresso da sua experiência”.
A televisão passa a criar um espaço e integração com modelos comportamentais e de pensamento fechados. Os géneros criam modelos de recepção.
Inventaria efeitos nefastos da televisão – “a psicologia das profundezas” na televisão: “mensagem manifesta” e “mensagem escondida”. Os efeitos nocivos desta iam ao encontro das tendências de natureza totalitária que se alimentavam de motivações irracionais.
McLuhan:
“Incorporando continuamente tecnologias relacionamo-nos com eles por servomecanismos”. A Galáxia Marconi retoma a ordem visual: “o emprego dos media electrónicos constitui uma fronteira que marca a clivagem entre o homem fragmentado de Gutenberg e o homem integral, da mesma forma que a alfabetização fonética marcou a passagem do homem tribal, centrado sobre o conhecimento oral, para o homem condicionado para a percepção visual. Isto provoca uma espécie de eclipse do eu – uma crise de identidade.
A televisão tem essa faculdade de produzir e reciclar as identidades colectivas, de criar um dispositivo simbólico partilhado, uma vida simbólica comum, o que, em última instância, pode ser visto como uma estratégia de agenciamento de conteúdos e saberes.
As visões catrastofistas dos efeitos sociais e culturais da televisão têm sido postos em causa mas permanece um contrato entre o objecto televisivo e a audiência.
As etapas marcantes da evolução teorética sobre a televisão vêm desde o determinismo tecnológico e simbólico de McLuhan até à escola francesa, desde Wolton e o seu profecismo optimista às profecias críticas de Bourdieu quando refere que o acesso à televisão está determinado a uma “formidável censura” ou quando discorre sobre as censuras invisíveis da nova ordem simbólica do pós-guerra decretada pela televisão e pelas audimetrias.
Anos 90 – colocar a televisão como campo simbólico e tecnológico que se auto-recicla recriando a cada momento o seu contrato de audiência como um dispositivo multiforme
Dispositivo televisivo e o modelo foucaultiano:
“uma rede de relações, de práticas, de estratégias discursivas imbricadas nas condições de enunciação, nas condições de exercício da função enunciativa, nas práticas disciplinares e no contexto histórico-cultural que enforma a genealogia do sujeito moderno. A própria dualidade “ver/ser visto” é o chamado dispositivo de vigilância, panóptico de espaços recortados”.
Se a televisão já foi instrumento gerador de consensos, hoje ela é um sistema que gera a indiferença.
Jerôme Bourdon alerta para o facto de o objecto televisivo ser já uma espécie de “mau objecto”. O certo é que a televisão cria facilmente consensos através da sua logorreia discursiva do que através daquilo que se tem escrito sobre ela.
A neo-televisão funciona pelo “time-budget” em que só conta o tempo que o telespectador passa no seu sofá.
Pós-Televisão
A pós-televisão afirma-se como uma televisão pelos públicos mais diversificados rompendo com um modelo cristalizado de programação que a televisão generalista construiu ao longo de décadas. É uma nova lógica só possível com o advento do digital marcada por novas competências dos públicos face aos programadores.
“Numa época em que se confrontam proto e pós-televisão muitos são os pontos de encontro entre modelos televisivos contraditórios, o que permite identificar uma resistência da televisão generalista à sua potencial canibalização pelo novo contexto da multiplicidade da oferta e da interactividade.”
“Mas se no modelo proto-histórico o pedagogismo televisivo acabava por integrar um processo de enriquecimento cultural, a submissão do dispositivo informativo à dominação política (devido à profunda dependência política da televisão pública para a perpetuação das democracias conservadoras europeias do pós-guerra) do tempo secundarizava as virtualidades de alguns segmentos da programação.”
Caseti e di Chio:
O estudo dos públicos não se confina na questão da audimetria. Mais do que saber quantos telespectadores viram um programa importa saber a razão porque o viram, a reacção ao que viram e a disponibilidade para o mundo de coisas que não viram. São os estudos qualitativos em televisão – o telespectador estatístico é muito diferente do reflexivo, do cidadão. É uma nova abordagem da questão da audiência.
A teoria da recepção não se esgota no audímetro. Este fala do triunfo da parte de mercado.
Manuel Maria Carrilho – “o que se avalia quando se medem as audiências não é o que as pessoas querem, mas a reacção àquilo que lhes é dado”.
Propor a reorientação dos estudos habituais de audiências com base no estudo sociológico aprofundado da recepção das emissões de televisão.
A questão essencial continua a ser a do poder da televisão. Muitos autores (Popper, Bourdieu) dizem que se o campo político não controla a televisão será ela a apropriar-se dele. Esta contradição vai sendo resolvida pelo económico e pelos equilíbrios que procura sustentar com o cultural.
O poder da televisão será tanto menor quanto maior for a competência e a capacidade de escolha dos públicos perante o dispositivo de produção/difusão da televisão. Daniel Dayan diz que na televisão há um público imperfeito, um quase-público. Por sua vez, Jean-Pierre Esquenazi diz que o “não público” constitui a identidade dominante dos telespectadores.
“A questão é a de saber como reforçar essa competência para alterar a lógica perversa da audimetria que conduz a televisão generalista a perpetuar uma programação que se decide sempre como uma espécie de hipertelia a partir da grelha-tipo da neo-televisão e não a partir dos interesses e expectativas do público auscultados no exterior da lógica audimétrica.”
Todd Gitlin relembra que desde o início do século XX que audiência significa “audiência de massa” mas que este conceito é alvo de uma simplificação expressa na forma como é avaliada: a partir de indicadores e abordagens estritamente quantitativas.
Os membros da audiência tendem a ser analisados apenas enquanto consumidores dos media desvalorizando-se outras facetas da sua vida pessoal e social. Gitlin reafirma a necessidade de uma perspectiva abrangente que contemple a totalidade da experiência dos membros de uma audiência.
Geneviéve Guicheney, provedora dos canais públicos franceses, diz que os telespectadores não podem ser vistos dentro da lógica economicista que encara os que vêem televisão como números.
Peter Meneer (dirigiu o sector de pesquisa da BBC entre 79-92) – “maximizar a audiência é um bom objectivo de gestão para a televisão comercial mas não para o serviço público”. A qualidade de um serviço público de televisão deve sempre ser ponderada em função da complementaridade face aos difusores privados, da variedade da oferta e da promoção da cultura local e da sensibilidade do público inquirida no exterior da própria lógica de medição audiências.
Trata-se de estudar o impacto dos programas num público que já não é um simples consumidor do discurso dominante mas participa na construção de sentido.
Complementar os índices de audiência com estudos qualitativos, por uma «qualimetria», recolhendo indicadores que aprofundem e ponderem a apreciação dos telespectadores sobre a organização das grelhas, sobre os programas concretos e ainda sobre géneros e programas que habitualmente não estão nos melhores segmentos horários, numa perspectiva quer de serviço público quer de respeitar também o interesse mais diversificado dos públicos, que naturalmente não se confinam no modelo esgotado, «unilateral», de programação da televisão clássica.
Adorno: “O esforço aqui requerido é de natureza moral: enfrentar conscientemente mecanismos psicológicos que operam em vários níveis, a fim de não nos tornarmos vítimas cegas e passivas”.
A televisão é, então, um dispositivo poderoso que tem de ter uma certa ética e uma certa moral. Por sua vez, a audiência não pode ser olhado simplesmente através de uma lógica economicista de visualização dos números e de maximização dos lucros.
Margarida Gil Faria da Ponte
4º ano de Ciências da Comunicação